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“Temos de ter a coragem de crescer”

Ana Bela Pereira da Silva, Presidente da Associação Portuguesa de Mulheres Empresárias (APME)

Conhecedora do potencial empreendedor feminino, Ana Bela Pereira da Silva, presidente da Associação Portuguesa de Mulheres Empresárias (APME), destaca a importância do financiamento na concretização de um bem estruturado Plano de Negócios e alerta para a necessidade de se preparar para enfrentar a mudança. Estes são também os temas do 4º Fórum Empresarial das Mulheres Portuguesas, organizado pela APME, que decorre dia 07 de Novembro, na Culturgest, em Lisboa.

 

No Feminino Negócios - A APME organiza o 4º Fórum Empresarial das Mulheres Portuguesas. Como presidente da APME, que objectivos fixa a este 4º Fórum que se realiza num clima de “crise e austeridade”?

Ana Bela Pereira da Silva - Um dos principais objectivos deste 4º Fórum é dar a possibilidade de pensar novas formas de financiamento, dadas as condições que neste momento a banca portuguesa atravessa. Nesse sentido, temos uma série de painéis e intervenções no 4º Fórum que buscam precisamente novas soluções.

Por um lado, o Financiamento com o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e Business Angels e também com um caso de sucesso liderado por uma mulher, bem como a visão do seu investidor. Temos também a Caixa Geral de Depósitos, nossa sponser deste evento, no sentido de percebermos quais as hipóteses e as portas que estão abertas, e temos ainda a visão do Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação (IAPMEI). No caso de haver um negócio em que há necessidade de um investimento maior podem ser estudadas estas várias formas de financiamento em simultâneo.

UMA MONTRA DE NEGÓCIOS

Depois, os outros painéis dão a devida importância à criação do Plano de Negócios. Quando vamos fazer um Plano de Negócios este deve ser adaptado tendo em consideração este ambiente de crise em que estamos a viver.

Além disso, temos também um outro aspecto importante: a normalização contabilística e as normas aplicadas às PME’s – porque isto tem que ver com a União Europeia e ou nós nos adaptamos ou teremos graves problemas em termos da gestão das próprias empresas.

E, finalmente, concluímos com a apresentação do que é a APME neste momento, com a apresentação do site da APME, cuja reformulação visa ser a montra de empresas e uma espécie de lista classificada para negócios de compra e venda que é aquilo que nós, neste momento, todos precisamos: comunicar o que fazemos. Temos uma montra onde qualquer pessoa pode ter acesso às empresas, saber o que elas produzem, o que vendem… Portanto, tem muito que ver com esta necessidade de podermos apoiar as nossas associadas a venderem mais e a tornarem os seus negócios viáveis e rentáveis, que isso é fundamental.

Quando vamos fazer um Plano de Negócios este deve ser adaptado tendo em consideração este ambiente de crise em que estamos a viver

Esta é a base principal deste 4º Fórum. Vamos pôr a própria APME a responder às necessidades deste momento que são mais prementes que nunca. É urgente que consigamos fornecer esta possibilidade às nossas associadas. Tanto mais que, depois, iremos tentar estabelecer redes com outras associações congéneres, na Europa e também na América Latina.

Em que medida o 4º Fórum Empresarial das Mulheres Portuguesas permite abrir horizontes às actuais e futuras empresárias?

Este Fórum vai-lhes possibilitar uma janela de oportunidades relativamente ao financiamento. Abre-se também uma janela de oportunidades relativamente a mais um meio, mais um canal para poderem vender os seus produtos e os seus serviços e integrarem-se numa rede muito mais dinâmica de conhecimento, até adoptando modelos e soluções que outras empresas já adoptaram.

Por outro lado, estruturar os pequenos negócios e as pequenas empresas, no sentido de se apoiarem mutuamente. Porque, neste momento, o “vender mais” pode ser crítico para a sustentabilidade de determinado negócio ou determinada empresa.

A IMPORTÂNCIA DO PLANO DE NEGÓCIOS

Resolver o problema do financiamento é crucial para um projecto empresarial. A banca portuguesa nunca distinguiu muito no apoio às empresas e, agora, ainda menos… Que diria a uma futura empresária sobre esta questão do financiamento?

A primeira coisa que eu diria é que tem de ter um Plano de Negócios muito bem feito, muito bem estruturado. Não é possível ir buscar seja que tipo de financiamento for se não conseguirmos ter esse Plano de Negócio perfeitamente estruturado.

Podemos ir buscar financiamento a particulares, ao modelo dos Business Angels, aos nossos amigos e familiares e, logicamente, podemos também ir buscá-lo à banca e ao microcrédito, se for caso disso, a projectos específicos do IAPMEI que estão a funcionar no Programa Operacional de Factores de Competitividade (POFC).

Há uma redução drástica dos financiamentos, mas eles existem, são mais exigentes na selecção aos negócios e às empresas a serem aplicados. E este grau de exigência implica, de facto, que qualquer proposta seja muito bem sustentada, porque senão não há qualquer hipótese.

Queremos apoiar as nossas associadas a venderem mais e a tornarem os seus negócios viáveis e rentáveis

É importante, crucial, que se perceba que ao estarmos num ambiente de mutação, temos de prever e temos de construir cenários. Isso é a base dos Planos de Negócios.

O que, no fundo, está a dizer é que as empresárias precisam de estar conscientes do mercado em si e das ameaças que esse mercado pode trazer para os seus negócios…

Claro. E também é bom que as pessoas percebam que há empresas que estão bem e há empresas que estão muito bem. Há negócios que são perfeitamente viáveis, não é tudo crítico. Se calhar, haverá muitas empresas ou muitos negócios que vão acabar, mas outros poderão nascer e desenvolver-se.

Ao estarmos num ambiente de mutação, temos de prever e temos de construir cenários. Isso é a base dos Planos de Negócios

Hoje, o tempo de vida de um negócio pode ser curto. E, portanto, o mercado muda, as condições mudam e o negócio pode deixar de ser rentável e nós temos que ter a coragem de dizer “OK, acabou, mas temos alternativas”. E este 4º Fórum vem elucidar as empresárias a perceberem que o Plano de Negócio tem de ser feito para podermos precaver o futuro.

SABER MUDAR

Enfrentar a mudança é possível, mas qual a atitude mais acertada para a fazer, quais as medidas essenciais a adoptar por parte das empreendedoras?

Seguir o mercado de uma forma muito mais atenta. É cada vez mais importante apercebermo-nos das necessidades dos clientes e irmos detectando novos e potenciais clientes.

Podemos analisar a possibilidade de lançamento de novos negócios e perceber se a estratégia tem de ser alterada.

Devemos estar atentas às condições financeiras, económicas e políticas existentes.

Os horizontes temporais são muito mais curtos e é este seguimento hora a hora, dia a dia, semana a semana que nos permite ir ajustando a gestão que vamos fazendo dos produtos que vendemos e até da própria dimensão da empresa.

É importante ter noção – é um acto de coragem – da possibilidade de reduzir a dimensão de uma empresa. Em vez de pôr em causa todos os postos de trabalho, está a pôr em causa alguns, por mais duro e violento que seja para quem tem de ficar desempregado.

Temos de ter a coragem de crescer, se for caso disso. Isto é fundamental e é um trabalho de parceria e de equipa.

A APME mostra-se cada vez mais como uma associação renovada e vai, no 4º Fórum Empresarial das Mulheres Portuguesas, mostrar precisamente isso: como se renovou e re-inovou em relação às novas tecnologias. Este é um incentivo às empreendedoras para uma maior aposta nas novas tecnologias, respondendo às necessidades da sociedade portuguesa?

Claro que sim. As novas tecnologias permitem-nos fazer o negócio de uma forma diferente. Não podemos comunicar da mesma maneira. Não comunicamos em papel da mesma maneira que comunicamos num e-mail. Não vale a pena irmos usar as novas tecnologias se não adaptarmos a nossa comunicação a essas novas tecnologias.

Deve haver um trabalho de adaptação por parte das empresas, mas é importante que se vá fazendo gradualmente. Mas é importante que aquilo que façam, façam bem feito, consoante a sua capacidade financeira.

Temos de ter a coragem de crescer, se for caso disso. Isto é fundamental e é um trabalho de parceria e de equipa

Normalmente não há quadros ou trabalhadores com capacidade para o fazer. E, de facto, quando se contratam serviços especializados temos de perceber a quem é que nos estamos a dirigir e a quem é que nos queremos dirigir.

CRIAR RIQUEZA

O que está a dizer é que, com a mudança da sociedade, se absorve muito mais as novas tecnologias e de uma forma completamente diferente face a alguns anos atrás. E as empresas devem adaptar a sua comunicação aos seus diferentes públicos – quer os que privilegiam o papel, quer os que privilegiam a informação online…

Sim. E o que eu acho é que cada vez mais não se sabe comunicar e se comunica pior. É a minha sensação. Eu continuo a achar que é extremamente importante o face a face. Acho que as pessoas têm medo de comunicar face a face, para se desresponsabilizarem – porque enviou um e-mail e pronto, enviou um e-mail e o assunto está resolvido. Não, não está! Sabe lá se a outra pessoa viu o e-mail, se a outra pessoa leu o e-mail…

Não vale a pena irmos usar as novas tecnologias se não adaptarmos a nossa comunicação a essas novas tecnologias

 O ideal então é aliar a comunicação face a face com as novas tecnologias…

Na minha opinião, sem dúvida nenhuma.

No 4º Fórum, ao termos esta ligação às novas tecnologias, queremos que esta ligação seja uma ligação efectiva. E, por isso, queremos as imagens das empresas, as imagens das empresárias e as imagens dos produtos para termos a certeza que existem.

Nós temos uma sociedade que cria dinheiro com um click – isto não é possível. A criação de riqueza não está no click, a criação de riqueza está sim na criação de produtos e serviços que correspondem às necessidades do próprio mercado. Não é com um click que se cria riqueza, não é com um click que se cria emprego. Isto, do ponto de vista financeiro, é assustador!

DONAEMPRESA

A APME viu o programa DoNaEmpresa distinguido como exemplo de boas práticas na igualdade de género pelo projecto europeu Winnet 8. Esta é uma aposta ganha da APME em formar e projectar empreendedoras?

Consideramos uma aposta ganha depois de analisarmos o número de negócios criados e a taxa de mortalidade dos mesmos. Os resultados obtidos ao longo dos tempos mostram-nos uma taxa de mortalidade dos negócios na casa dos 10, 20, às vezes 30 por cento. O que nos leva a indicadores muitíssimo bons em termos de resultados.

Deve haver políticas dirigidas e focalizadas no empreendedorismo feminino, porque é um potencial de criação de emprego, de riqueza e da sua distribuição. Isso é uma experiência não só vivida em Portugal, mas também no resto da Europa e até mesmo noutros países, como a Índia, ou na América Latina. Portanto, aqui temos uma aposta política que ao nível da União Europeia é claríssima, ao nível de Portugal vamos ver o que é que este nosso novo Governo pensa fazer nestes domínios…

A focalização neste potencial empreendedor é fundamental para a riqueza das regiões e do nosso País.

Às vezes é mais fácil sermos reconhecidos no exterior do que a nível nacional… E, neste caso, foi o que aconteceu. Mas, de facto, isto é o reconhecimento que nos dá a energia para continuarmos. De facto, a APME sempre esteve muito centrada nas MPE’s, que são sobretudo aquelas que são geridas e lideradas por mulheres, não só devido à dimensão, mas também ao sector em que estão maioritariamente instaladas as mais fragilizadas. Este potencial feminino que não pode nem deve ser desprezado.

Pelo conhecimento que tem das experiências das congéneres europeias, há alguma mudança estratégica por parte dessas associações para que consigam mais apoios governamentais?

O potencial empreendedor feminino não é exclusivo da União Europeia e dos países que compõem a União Europeia, tanto mais que nós, em Portugal, devemos ser dos países que menos tem feito neste domínio.

Quando saímos da Europa, este reconhecimento existe e existem medidas com alguma índole de carácter social, também para que mulheres que não teriam grande capacidade de poderem ser integradas no mercado de trabalho tenham a possibilidade de criar o seu próprio emprego. Quando saímos da Europa e vamos para regiões que estão em desenvolvimento, estes programas são importantíssimos.

Temos programas extremamente interessantes na Ásia, em África, na América Latina, como no Brasil, por exemplo, com o SEBRAE (que pertence ao Estado, não é privado) que tem feito um trabalho extremamente importante no lançamento de programas de apoio.

A APME sempre esteve muito centrada nas MPE’s, que são sobretudo aquelas que são geridas e lideradas por mulheres. Este potencial feminino que não pode nem deve ser desprezado

Esta aposta passa-se em todo o mundo. A recuperação da economia dos Estados Unidos foi feita, em grande parte, com base no potencial empreendedor das mulheres. Isto foi reconhecido.

As mulheres têm uma capacidade empreendedora superior à dos homens, são melhores perdedoras, honram muito mais os seus compromissos que os homens.

O TALENTO NÃO TEM GÉNERO

A APME esteve, uma vez mais, a representar Portugal na XXII edição do Congresso Ibero-Americano de Mulheres Empresárias (CIME), que se realizou em meados de Outubro, no Paraguai, depois de ter organizado, em Portugal, em 2010, o XXI CIME. Como correu este ano esta iniciativa?

O XXII CIME foi muito centralizado na América Latina. O potencial, neste momento de crescimento da América Latina, é algo extremamente importante, não só para os próprios países, como em relação ao resto do mundo.

Chegámos à conclusão, não neste CIME mas já há muito tempo, que os problemas são sempre muito idênticos. As fórmulas, as respostas, a focalização, os apoios e o reconhecimento é que são completamente diferentes.

Mas este potencial empreendedor na América Latina é reconhecido e é um trabalho de grande mérito e coragem que tem sido feito pelas mulheres, porque são países onde ainda nos situamos em patamares diferentes, isto até mesmo relativamente à própria legislação.

Ter uma legislação adequada que considera o homem e a mulher como pares e que não é discriminatória, que promove a conciliação entre o trabalho e a vida pessoal é importante. E na Europa estamos, de facto, mais adiantados, com Portugal a ter uma legislação bastante moderna.

Nós, homens e mulheres, não estamos ainda preparados para esta igualdade, porque estamos a mexer com aquilo que é o mais difícil e que precisa de tempo que é o acervo cultural, quase como o ADN, que não passa de repente.

A minha esperança e a minha energia estão focalizadas para que possamos avançar mais ainda no sentido de que o talento não tem género e o potencial empreendedor feminino não pode ser desprezado.

Que conselhos deixa às futuras empresárias?

Estar segura do percurso de vida que quer seguir.

Se tem família, partilhar com eles o seu percurso e a sua opção em termos de constituir uma empresa, porque é importante que haja uma retaguarda afectiva. Há decisões que têm de ser tomadas que implicam a própria família e todo o domínio dos afectos. Isso é muito importante: partilhar.

Por outro lado, percebermos que temos de tomar decisões e temos de assumir riscos.

A verdade é que, hoje, o ser prudente é necessário, mas também temos de ter um grau de “loucura” e a coragem para avançar, senão ficamos paralisadas.

É essencial formar equipas e saber geri-las. Equipas que se complementem, valorizando aquilo que cada um tem de único.

Mais que os conhecimentos técnicos ou tecnológicos, as atitudes e os comportamentos são fundamentais.

E temos ainda de trabalhar em parceria e em equipa com os nossos clientes. Isto é fundamental e as mulheres sabem fazê-lo bem.

 

 

 

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