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Asia Bibi condenada à morte por um copo de água

Asia Bibi é uma mulher paquistanesa, uma camponesa pobre e analfabeta, mãe de cinco filhos. Em Novembro de 2010, aos 40 anos, foi condenada à forca. O “crime”: ter bebido um copo de água, por ter sede, a meio de um dia de trabalho nos campos de um senhor da sua aldeia, no Punjab paquistanês. O gesto pode agora custar-lhe a vida, por ser católica.

No dia 14 de Junho de 2009 estavam 45 graus centígrados. Asia Bibi estava, há várias horas, a apanhar bagas, numa colheita penosa. Por volta do meio-dia, alagada em suor, a pobre mulher foi até ao poço mais próximo, pegou num copo e bebeu água fresca – estava, nesse momento, a assinar a sua sentença de morte, num país muçulmano onde o radicalismo cresce e onde “ser cristão é saber baixar um pouco os olhos”.

Asia foi denunciada por uma colega, que a acusou de ser “haram” (impura) e de estar a “sujar a água” – que “é das mulheres muçulmanas” – ao servir-se dela, impedindo assim as companheiras muçulmanas de beber dali. Mas a camponesa Asia não baixou os olhos e protestou. A discussão subiu de tom e, de repente, espalhou-se uma palavra: “blasfémia!” – o destino de Asia estava traçado.

Cinco dias depois, atirada por uma multidão em fúria para a frente da casa do chefe da aldeia, o imã disse-lhe: “Se não queres morrer, deves converter-te ao Islão”. Asia recusou e o imã lavou as mãos: “Uma vez que não queres converter-te e que o Profeta não pode defender-te, vamos vingá-lo”. Asia Bibi foi atirada para a prisão. Um ano depois, foi condenada à morte por enforcamento, em nome da lei sobre a blasfémia – é a primeira mulher deste século a ser condenada. Desde então, foi posta a “apodrecer” nas masmorras femininas da cidade de Sheikhupura, numa cela de dois por três metros quadrados, sem luz, com um buraco no chão que não leva a lado nenhum e que cheira a gordura, suor e urina. A sua família foi obrigada a fugir da aldeia, ameaçada pelos extremistas.

Tudo isto é contado pela própria Asia Bibi, com a ajuda da jornalista francesa Anne-Isabelle Tollet, no livro Blasfémia – Condenada à morte por um copo de água. A obra é uma espécie de libelo acusatório, um alerta de consciência, mas, sobretudo, um comovente relato de uma mulher simples que não consegue perceber a razão da sanha que se levantou contra ela.

Desde que Asia foi presa, o mulá de Peshawar já ofereceu 50 mil rupias pela sua morte e, segundo a imprensa do país, há dez milhões de conterrâneos seus que estão prontos a matá-la, caso a sentença não se cumpra. Porém, há também quem tenha saído em defesa de Asia Bibi: o governador do Estado do Punjabe, Salman Taseer, e o ministro das Minorias, Shahbaz Bhatti – um cristão, o outro muçulmano. Acabaram ambos selvaticamente assassinados. Fora do Paquistão, o Papa Bento XVI pediu clemência, a americana Hillary Clinton apelou à sua libertação e o francês Nicolas Sarkozy ofereceu-se para receber Asia se esta fosse libertada.

A morte dos dois políticos veio piorar ainda mais a situação de Asia Bibi. Mudou de cela e não pode sair para o pátio. É vigiada 24 horas por dia por uma câmara de vigilância e, como ela diz, tem agora como única companhia um moscardo preto.

Muitos dos condenados por blasfémia acabaram mortos quando ainda estavam na prisão. E Asia sabe que, “se por milagre eu não for morta na cela antes de ser julgada, serei assassinada de qualquer maneira”.

Portuguesas juntas pela libertação de Asia Bibi

Também Portugal não quis deixar de prestar o seu apoio a Asia Bibi. Diversas mulheres assinaram uma carta, dirigida ao presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, a pedir a amnistia da paquistanesa.

A petição, cuja ideia partiu de Manuela Eanes, presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), contou com a assinatura de Assunção Esteves, presidente do Parlamento, Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça, Ana Gomes, eurodeputada socialista, das ex-ministras Leonor Beleza e Manuela Ferreira Leite e ainda Graça Machel, actual mulher de Nelson Mandela.

“Era um dever cívico enviar esta carta, porque os direitos humanos não têm fronteiras”, disse Manuela Eanes. A presidente do IAC contou que se encontrou com a embaixadora do Paquistão em Portugal, Humaira Hasan, e a diplomata “foi de uma grande compreensão e encorajou muito a nossa iniciativa. Disse mesmo que a carta poderia ajudar o presidente Zardari a tomar uma posição rápida, porque a situação está a ser manipulada por um grupo fundamentalista que quer denegrir a imagem do Paquistão”.

Na carta, assinada por portuguesas e estrangeiras, de diferente sensibilidades religiosas e políticas, apelaram ao líder paquistanês que repudie a condenação de Asia Bibi que continua presa e apenas pode receber a visita do marido (que vive escondido, com os filhos de ambos) e do advogado.

 

Título: Blasfémia – Condenada à morte por um copo de água
Autora: Anne-Isabelle Tollet e Asia Bibi
Editora: Aletheia
Edição: 2011
Idioma: Português
Nº de páginas: 144

 

 

 

 

 

2 Comentários

  1. Maria Amélia Campos says:

    Vou enviar esta mensagem à AVAAZ, para que, mundiamente, nos possamos, uma vez mais mobilizar contra a tirania.

  2. Abílio Silva says:

    E com gente, com estes radicalismos, é o Paquistão uma potência Nuclear. Imaginem que chegam ao poder?

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