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A SEFIN defende clientes dos bancos

Leonor Coutinho

Mulher das “matemáticas” que cedo singrou num mundo de homens, Leonor Coutinho tem uma vasta e bem sucedida carreira, dedicou muito da sua vida a áreas nunca antes “trabalhadas” por mulheres e foi pioneira em diversas iniciativas em prol do consumidor, como a SEFIN. Em conversa com o No Feminino Negócios, Leonor Coutinho lamenta que muitos negócios se façam sobretudo em ambientes informais, marcadamente masculinos, a que muitas mulheres, ainda hoje, dificilmente têm acesso. E revela ser contra a adopção de quotas na direcção de empresas públicas, pois acredita que mais importante é definir critérios claros de selecção que premeiem a competência, tanto de mulheres como de homens.

 

No Feminino Negócios - Foi a grande responsável pela criação da SEFIN – Associação Portuguesa dos Utilizadores e Consumidores de Serviços e Produtos Financeiros. Que associação é esta e quais são os seus objectivos?

Leonor Coutinho - A SEFIN é uma associação com 50 fundadores que a criaram com o objectivo de defender os interesses dos utentes do serviço financeiro.

Tínhamos a sensação que, de facto, o utente do serviço financeiro era muitas vezes seduzido sem perceber muito bem aquilo que estava a comprar exactamente, sem perceber os riscos que podia correr – na sua vida particular, no tipo de investimentos que estava a fazer, na remuneração que estava a ter, nas comissões que lhe eram cobradas, nas cláusulas dos contratos que assinava –, muitas vezes sem perceber bem o que lá estava escrito. E, por isso, achámos que era importante que houvesse uma associação especificamente dedicada a esse tema. E foi isso que fizemos.

Agora temos mais sócios, mas somos todos voluntários, somos completamente independentes e temos lutado pela defesa de muitos pontos que nos parecem importantes para os utentes dos serviços financeiros.

E o que começaram por fazer?

A nossa primeira luta, e penso que foi a mais conhecida, foi contra os arredondamentos. Os bancos contratualizavam uma taxa, mas na realidade havia lá uma cláusula que previa o arredondamento, mas era um arredondamento sempre para cima, nunca arredondavam para baixo. E nós vimos que havia legislação europeia que proibia que, nas cláusulas gerais – aquelas que não são negociáveis –, houvesse cláusulas que não fossem equilibradas, que fossem só num sentido. E, por isso, o Governo legislou sobre essa matéria, não tivemos sequer que fazer grande luta nos tribunais, de modo a que, não só nos contratos futuros, mas também nos contratos passados, mesmo que as pessoas tivessem assinado naquelas cláusulas gerais que haveria um arredondamento, isso passasse a ser proibido.

Tínhamos a sensação que o utente do serviço financeiro era muitas vezes seduzido sem perceber muito bem aquilo que estava a comprar exactamente.

Houve, desde então, muitas outras lutas… Lembro-me também que houve uma alteração, feita há dois anos, nos certificados de aforro – que eram um meio de poupança que remuneravam muito bem. A taxa de juro foi alterada e aquilo deixou de ter interesse… Aquilo por que nos batemos – mas perdemos a luta – era a criação, por parte do Governo, de um instrumento que pagasse tanto aos particulares como paga aos fundos de investimento quando coloca dívida, para não depender tanto do estrangeiro. Até porque estamos convencidos que muitas das pessoas que colocam dinheiro no exterior, se forem mais bem remuneradas, até preferem ter cá o dinheiro.

Uma medida positiva foi a criação, a 01 de Julho de 2010, dos certificados do Tesouro, que têm níveis de remuneração bastante bons, uma vez que são os mesmos que Portugal paga aos fundos de investimento que emprestam dinheiro.

Mas, infelizmente, estas coisas nunca têm muita divulgação. Tudo o que é para defender os utentes não tem muita divulgação. Normalmente, o que tem muita divulgação é aquilo que nos querem impingir, ou seja, aquilo que temos menos interesse em comprar.

E foi para contrariar essa tendência que foi criada a SEFIN…

Exactamente. A SEFIN foi criada para, num sistema financeiro em que há tanta desigualdade – de informação, de meios para combater, de meios de informação, de meios de acesso ao mercado –, dar um bocadinho mais ao consumidor.

Qualquer pessoa pode ser sócia da SEFIN?

Sim. E nós, normalmente, ajudamos as pessoas. Temos muitas pessoas que nos escrevem e que nós tentamos ajudar, obviamente com as limitações de não termos um serviço que faça isso. Por isso, muitas vezes, dirigimos as pessoas para os vários serviços que fazem isso profissionalmente.

Foi, nos anos 70, uma dirigente da Alta Autoridades dos Transportes de Paris e foi também, na mesma década, em Portugal, directora de Planeamento da Carris, onde criou e lançou o Passe Social. Como surgiu esta ideia, como é que ela foi aceite na altura e, quase 40 anos depois, como vê a sua “invenção”?

O trabalho que desenvolvi como responsável dos Transportes na equipa do Plano Director de Paris, na década de 70, permitiu-me estar bastante sintonizada com muitas políticas no sentido de incentivar o uso do transporte público e de tentar atenuar as dificuldades para os utentes que, em Portugal, tinham de mudar de transporte, mudar de companhia, de sistema tarifário, em função do itinerário que faziam. E, por isso, na altura, pareceu-me muito importante, para lançar uma noção de rede para o utente, ter uma tarificação que fosse territorial, ou seja, em função das zonas onde se andava.

A nossa primeira luta, e penso que foi a mais conhecida, foi contra os arredondamentos.

Em Lisboa, estabeleceu-se um preço único, o “L”, que era o passe para andar em qualquer modo de transporte em Lisboa. Havia também as várias coroas e a pessoa comprava o passe em função da zona territorial onde queria andar.

O ministro dos Transportes da altura, Rui Vilar, acarinhou bastante a ideia, logo implantada em Janeiro de 1976. Mas esta foi um bocado tímida, no início, porque nem todos os operadores aderiram. E, por isso, foi preciso apoio do próprio ministro dos Transportes para favorecer a colaboração de todos os operadores de transporte e alargar o sistema. A ideia, aliás, era alargá-lo a toda a área metropolitana de Lisboa, o que acabou por não acontecer.

Que dificuldades surgiram para que essa ideia não avançasse?

Existiram, por exemplo, várias iniciativas posteriores que tentaram destruir o sistema ao lançar os passes combinados. Ou seja, vendeu-se mais barato um produto que dava menos mobilidade às pessoas. E, com isto, incentivou-se o inverso daquilo que seria necessário incentivar.

As pessoas ficaram com menos mobilidade, presas só ao modo de transporte, com um sistema muito mais complicado. Agora, há mais de 700 títulos de transporte diferentes! É um sistema quase incompreensível, um pouco mais barato, mas que resulta em menos receitas para o sistema. Isto é mau para o sistema e é mau também para as pessoas, porque perdem a mobilidade, que era aquilo que se pretendia.

Mais de 30 anos depois, o sistema que implementámos continua a corresponder a 50 por cento dos títulos de transporte, porque os outros sistemas, os tais 700 títulos que existem, acabam por apenas complicar e não contribuir em nada para incentivar o uso do transporte público que tem vindo a diminuir. Enquanto, naquela altura, essa utilização aumentou imenso.

Dois dos meus objectivos, e tenho pena que não tenham sido conseguidos, eram alargar o sistema a toda a área metropolitana e ter um sistema só territorial também para os bilhetes. Ou seja, ao comprar-se um bilhete o que interessaria era o sítio para onde o utente se pretendia deslocar: em função desse critério, devia ser dada ao utente a possibilidade de comprar um bilhete único para todos os transportes, com o preço a variar apenas em função do utente se deslocar só em Lisboa ou para sítios localizados nas diferentes coroas.

Outra iniciativa inovadora com o seu cunho foi, em 2001, a publicação do Guia Prático da Habitação, já que, nessa altura, em Portugal, era escassa a informação que orientasse os consumidores, na escolha, compra e preservação de casa, ao contrário do que se passava noutros países…

Na maior parte dos países europeus há imensos sites e associações que divulgam muita informação sobre a qualidade dos materiais de construção. Os próprios mediadores fazem uma apreciação sobre a qualidade da casa. Ou seja, há informação muito mais técnica, o que permite aos compradores ter muito mais confiança.

Nós, cá, não tínhamos essa tradição. E o que muitas vezes me pareceu, enquanto secretária de Estado da Habitação, que o importante não era complicar a legislação, antes dar às pessoas a informação necessária para que soubessem avaliar o produto que estavam a comprar.

Dois dos meus objectivos eram alargar o sistema [de transportes] a toda a área metropolitana e ter um sistema só territorial também para os bilhetes.

Nesse sentido, fez-se o lançamento desse Guia, relativamente simples. Era, no fundo, um modelo daqueles guias que nos dão quando compramos um automóvel: onde se descreve o veículo e se diz como é que cada coisa funciona, o que é que temos que olhar, quais as avarias mais vulgares, etc.

Esse Guia tinha como objectivo ser uma peça muito simples, para as pessoas terem, de facto, informação que as ajudasse na compra, na manutenção e até na construção de uma casa. Porque até diz com o que é preciso ter cuidado nas várias fases de construção de uma casa.

O Guia, devo dizer, esgotou-se em sete dias. Foram 70 mil exemplares vendidos em sete dias!

Isso revela a falta de informação que, de facto, havia em Portugal sobre o tema…

Sim. E eu penso que continua a haver escassez dessa informação. Porque, apesar de se ter complicado muito a legislação – há muito mais burocracia, certificações –, eu não sei se o consumidor está bem protegido com essas burocracias que, muitas vezes, não oferecem uma protecção superior à que a própria Lei já oferece.

O lançamento do Guia Prático da Habitação foi o trampolim para outras iniciativas?

Na Habitação, tentei sempre que houvesse muita informação. E uma das iniciativas da altura foi encomendar ao INE [Instituto Nacional de Estatística] séries sobre a Habitação. Isto porque os dados que o INE publicava traduziam muito mal a construção que era feita em Portugal.

Dizia-se sempre que se estavam a construir “x” casas, “x” fogos por mês e, ao fim de dez anos, quando havia o censo, verificava-se que as estatísticas eram tão más que os censos revelavam o dobro da construção. Durante anos, as estatísticas revelavam que se estava a construir pouco, quando, na realidade, já se estava a construir demais. E eu tinha essa sensação, tinha essa certeza. Por isso, pedi que houvesse estatística, de maneira a que existissem dados objectivos sobre a construção, sobre qual era o parque, sobre os preços praticados, os preços dos materiais e também os preços de vendas – que em Portugal eram muito pouco conhecidos.

Muitas vezes me pareceu, enquanto secretária de Estado da Habitação, que o importante não era complicar a legislação, antes dar às pessoas a informação necessária para que soubessem avaliar o produto que estavam a comprar.

Tudo isto foram elementos de informação muito importantes que nos ajudaram a não termos um “boom” tão catastrófico como teve Espanha, onde os preços cresceram muito e a construção também cresceu tanto que, quando veio a crise, de facto, viram-se com um enorme problema, à semelhança dos Estados Unidos.

Há um grande preconceito entre as mulheres e os números… Mas a Leonor Coutinho é formada em Matemática. De acordo com a sua própria experiência, como é esta relação entre a Matemática e as mulheres?

Eu nunca tive muita consciência disso. Sou matemática, sempre gostei muito de números, mas também de tudo o resto da Matemática que não são números. A Matemática não tem que ver com números, a topologia não tem que ver com números, a Geometria não tem que ver com números. Aquilo que eu mais gosto, que é a Teoria da Decisão e a Investigação Operacional tem, de facto, que ver com números – mas não é uma questão de contas!

Tive a sorte de tirar também meia licenciatura em Informática, numa altura do início da informática, o que me permitiu também ter acesso à parte de dentro das máquinas – que na altura ainda era muito visível, hoje é quase como uma caixa negra.

Eu era uma rapariga que gostava de muita coisa. E, no fundo, fui para Matemática porque era quase a única coisa que não era preciso estudar, bastava perceber. Eu percebia, ia às aulas e, portanto, não era preciso estudar, era muito simples! E fui sempre muito boa aluna a Matemática.

Acredito bastante na complementaridade entre homens e mulheres, é muito mais agradável trabalhar em equipas mistas.

Devo dizer que a minha mãe era professora de Matemática. Muitos dos meus irmãos são engenheiros, o que também tem que ver com Matemática. Tenho um outro irmão que é agora professor de Matemática no [Instituto Superior] Técnico. O meu avô já era professor de Matemática… Ou seja, tenho uma família que tem muitos matemáticos e, por isso, não sentimos essa dificuldade, porque, para nós, foi sempre intuitivo.

Ao longo destes vários anos, a sua actividade profissional tem estado muito ligada às áreas dos Transportes, Obras Públicas, Habitação e Telecomunicações. São áreas fáceis de tratar por uma mulher? Ou melhor, por ser mulher, alguma vez se sentiu discriminada no desempenho das suas funções?

Eu trabalhei sempre em áreas nas quais, quando entrei, havia muito poucas ou mesmo nenhuma mulher. Os Transportes, nos anos 70, e o Urbanismo, também nos anos 70, tinham muito poucas mulheres. Assim como, nos anos 80, a política tinha muito poucas mulheres. Fui, de facto, pioneira em muitos domínios. E o que eu sinto é que os tempos é que mudaram muito. A aceitação e as dificuldades das mulheres – na sua vida profissional, na sua aceitação pública, mas também na sua afirmação pessoal – é um fenómeno bastante recente, pelo qual a minha geração lutou. As outras gerações a seguir já têm uma situação muito diferente.

Muitas vezes, a entrada profissional das mulheres deu-se muito por nichos de mercado. Ou seja, pequenos nichos onde há muitas mulheres. O que também não é muito bom, porque eu acredito bastante na complementaridade entre homens e mulheres, é muito mais agradável trabalhar em equipas mistas. Acredito na necessidade de um certo equilíbrio, acho que as capacidades intelectuais são as mesmas, mas as qualidades são diferentes e, portanto, são complementares.

Aliás, devo dizer que, em França, quando entrei para a equipa do Plano Director entrei num concurso público, que foi feito para pessoas que saíam de uma pós-graduação universitária – que era o que eu tinha na altura, em Investigação Operacional. E fui escolhida por professores universitários, que não se aperceberam que eu era uma mulher. E quando eu cheguei à APUR [Atelier Parisien d’Urbanisme], o director disse-me que até acreditava que eu fosse uma pessoa excelente, mas que ninguém me ia dar credibilidade e que, portanto, eu não lhe convinha. Parece inacreditável, mas é verdade, isto passou-se em 1970, em Paris.

Mas o facto é que depois ficou…

Fiquei. E porquê? Porque quem me tinha escolhido foram professores universitários e não se diz que não a professores universitários. E um dos professores, que era, no fundo, o encarregado pela escolha, negociou com o presidente da APUR no sentido de o lugar de chefia para o qual eu ia – sim, porque eu ia para um lugar de chefia – não ficaria preenchido. Que eu entrava e não ia para o lugar de chefia, mas entrava. E, ao fim de dois anos, foi o próprio director que me nomeou para o tal lugar de chefia, que entretanto não tinha sido preenchido.

Parece impossível, não é? Mas isto passou-se há 40 anos, em Paris!

Em Portugal, há cada vez mais mulheres empresárias, mas continuam a existir diversas carências no apoio ao empresariado e empreendedorismo feminino. A menor presença de mulheres na política poderá estar a contribuir para esta situação?

Penso que na política se deram, muito recentemente, até passos maiores que no mundo empresarial. Não quer dizer que não haja muitas mulheres empresárias, mas, como disse Pires de Lima numa entrevista – quanto a mim infeliz –, os negócios fazem-se muito mais nos almoços e nos jantares que na leitura dos dossiers e das negociações. Há este aspecto informal dos negócios que se passa, muitas vezes, em ambientes masculinos, em relacionamentos muito masculinos.

Os negócios fazem-se muito mais nos almoços e nos jantares que na leitura dos dossiers e das negociações. Essa informalidade prejudica muitíssimo as mulheres, tanto na política como no mundo empresarial.

O facto de, em Portugal e em todo o mundo, as decisões não se tomarem nos sítios formais, mas nos sítios informais, dificulta muito a credibilidade, o acesso à informação, a oportunidade das mulheres. O homem, quando precisa de alguém para este ou para aquele lugar, vai lembrar-se das pessoas que conhece. Não é por mal, mas se ele não lida muito com mulheres empresárias, do ponto de vista profissional, que sejam capazes de ocupar aquele lugar, ele não se vai lembrar delas. E, portanto, vai escolher o filho do amigo, que ele até conhece e é jeitoso… Essa informalidade, no fundo, prejudica muitíssimo as mulheres, tanto na política como no mundo empresarial.

E não basta as mulheres estarem presentes, é preciso terem influência. Penso que, neste momento, na política, as mulheres estão mais presentes, mas não quer dizer que estejam nesses sítios informais onde se tomam as decisões. E é esse o problema.

É necessário, ainda, compensar o demasiado peso da presença nesses centros de decisão informal que, no fundo, decidem tudo em Portugal.

Compensar de que modo?

Favorecendo as mulheres na escolha. O sistema de quotas é muito mal visto, apesar de ser aplicado a tudo, mas em relação ao género é muito mal visto. Reconheço também que é muito difícil fazer uma selecção em função dos resultados académicos. Porque toda a gente tem mais ou menos o mesmo resultado. E, portanto, contrariamente ao que se passa noutros países, em que podemos contrapor a uma escolha a competência, em Portugal, a competência é muito difícil de mostrar, porque o ensino não cumpre essa função de seleccionar mais a capacidade das pessoas nas várias áreas.

É capaz de ser mais útil lembrar os critérios de selecção que avançar propriamente para uma imposição de quotas.

Este é um “handicap” muito português. Por exemplo, em França, o sistema de ensino é muito mais selectivo. O sistema de notas também é muito mais diferencial. Ou seja, o sistema de ensino permite seleccionar elites, o que não acontece em Portugal. E, portanto, por cá, as elites são aquelas que têm os nomes das grandes famílias.

Falou-se, há uns tempos, na possibilidade de o PS avançar com um projecto-lei que impunha uma quota de 33 por cento de mulheres nos cargos de chefia da administração pública e nas empresas públicas. Que vantagens ou desvantagens vê na sua adopção? Considera que a imposição desta quota poderia determinar ou, pelo menos, incentivar à mudança de mentalidades?

Aquilo que eu penso é que, na função pública, nos cargos de chefia, como não são muito bem pagos, até há uma grande percentagem de mulheres, mas nas empresas públicas há muito menos, porque é um sistema de escolha individual. Embora, obviamente, a actual situação seja já muito diferente do que era.

E eu penso que é capaz de ser mais útil esses números serem publicados, lembrar os critérios de selecção, que avançar propriamente para uma imposição de quotas, neste domínio. Até porque há sempre tendência para se pensar que a entrada de mulheres para preencher as quotas foi feita por cunha…

Este caso não é como na política. Trata-se de um caso em que uma mulher é escolhida para um cargo que é arbitrário, não representativo, trata-se de um cargo de chefia de uma empresa pública. Não é um problema de representação, é meramente um problema de competência.

Eu preferia que fossem feitas provas de selecção ou que houvesse critérios de selecção mais rigorosos, como acontece, por exemplo, com a entrada na universidade. Reconheço que é difícil, porque o nosso sistema de ensino não é suficientemente selectivo. Mas não vejo grandes vantagens na adopção das quotas…

Além disso é preciso ver que há cada vez menos empresas públicas. E o que molda a sociedade não são as empresas públicas, são as empresas privadas, onde essa lei não se aplicaria.

É evidente que na Noruega essa lei se aplica tanto às empresas públicas como às privadas, mas penso que a nossa sociedade teria alguma dificuldade em aceitar uma lei desse tipo. E só aplicá-la às públicas acho que seria contraproducente.

LEONOR COUTINHO

Professora de Matemática e Urbanista de profissão, Leonor Coutinho é licenciada em Matemática, pela Faculdade de Ciências da Universidade Paris VI, pós-graduada em Finanças e Gestão do Imobiliário, pelo Instituto de Estatística da Universidade de Paris VII, e diplomada em “Conception des Systèmes Informatiques”, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Paris VII.

Mulher e profissional de muito sucesso, foi coordenadora da equipa responsável pelos transportes da APUR – Atelier Parisien d’Urbanisme, no início dos anos 70, e dedicou grande parte da sua carreira à Carris, onde iniciou funções como técnica de investigação. Entre 1974 e 1989, pertenceu aos quadros de chefia da Carris, tendo inclusive sido presidente do Grupo Desportivo da Carris, entre 1976 e 1978. Leonor Coutinho foi também directora da ITUR – Inovação em Transportes Urbanos e Regionais (1986-88).

Com diversas obras publicadas nas áreas dos Transportes e da Habitação, Leonor Coutinho é um importante nome no panorama político português. Deputada na V, VI, VII e IX Legislaturas, ocupou também, entre outros, os cargos de vereadora da Câmara Municipal de Almada (1990-92), administradora da Fundação Antero de Quental (1990-94), secretária de Estado da Habitação e das Comunicações do XIII Governo Constitucional e secretária de Estado da Habitação do XIV Governo Constitucional.

Actualmente, Leonor Coutinho é vereadora da Câmara Municipal de Cascais.

 

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