Cláudia Goya, Directora Geral da Microsoft Portugal

"Sou uma mulher de desafios"


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Cláudia Goya é a primeira mulher a assumir a liderança da Microsoft Portugal... e é também uma das poucas mulheres à frente de uma grande empresa no nosso País. Em entrevista ao No Feminino Negócios, a dirigente comenta a demasiado tímida aposta no talento e capacidade das gestoras, fala das perspectivas e medidas da Microsoft face à crise e revela as suas ambições e objectivos para a empresa nos próximos anos.

No Feminino Negócios – Assume a liderança da Microsoft Portugal, num contexto económico global particularmente difícil. Como perspectiva a Microsoft esta crise e como se propõe lidar com ela?

Cláudia Goya – Todos sabemos que o clima económico actual é drasticamente diferente do que existia há apenas um ano. Os nossos clientes e parceiros, que constituem o nosso grande barómetro de auscultação do mercado, têm-nos, contudo, falado muito sobre a oportunidade, o crescimento e o seu investimento no futuro. Hoje em dia, não tenho dúvidas que continua a predominar um sentimento de prudência na ordem do dia, todavia, continuamos optimistas sobre as perspectivas económicas globais e locais a mais longo prazo.

Persistem ainda muitas das tendências que tornaram esta uma era de expansão comercial dinâmica. A tecnologia continua a evoluir. A produtividade continua a aumentar. As inovações continuam a criar novas oportunidades de negócio. Simultaneamente, é evidente que se vivem tempos em que os líderes das empresas têm que avaliar cuidadosamente a melhor forma de utilizar os seus recursos para resistir a qualquer incerteza com que se venham a deparar.

Se olharmos para o caso da Microsoft podemos ver que, num ano muitíssimo difícil para a companhia, onde pela primeira vez tivemos de anunciar reduções de efectivos à escala internacional, tem também a maior onda de sempre de novidades tecnológicas. Em pouco mais de um ano vamos renovar por completo a nossa oferta base e continuamos a progredir em áreas onde não temos sido tão fortes como o online.

Não é por acaso que temos sido sistematicamente considerada a Melhor Empresa para Trabalhar em Portugal.

Em Portugal, a excelência da subsidiária tem-nos permitido permanecer imunes a estas decisões difíceis com pessoas. A nossa imunidade tem sido conseguida, em última instância, pela nossa capacidade de continuar a entregar e a superar os objectivos previstos – e não devemos esquecer que esta subsidiária esteve entre as duas melhores subsidiárias da MS Corporation (média dimensão) nos três últimos anos consecutivos.

Portugal não viveu nos últimos anos o "boom" económico de outros países (como por exemplo a Espanha), o que significa que a Microsoft não teve a vida facilitada por uma procura acrescida que convidasse a alguma complacência. Este facto fez com que a subsidiária procurasse, nos últimos três anos, diversificar áreas de mercado e oportunidades, adaptar a oferta ao contexto de crise, usar de grande rigor e criteriosidade nos recrutamentos, o que significa que não acumulámos "gordura organizacional", logo, continuamos com bons rácios de eficiência e, acima de tudo, apostarmos nas pessoas. Não é por acaso que temos sido sistematicamente considerada a Melhor Empresa para Trabalhar em Portugal. Colocamos os colaboradores no centro das nossas preocupações, porque sabemos que a sua motivação e produtividade são a chave do sucesso comercial.

A minha grande missão é fazer tudo o que está ao meu alcance para assim continuarmos e aumentarmos ainda mais a nossa capacidade de inovação e de reinvenção internas, continuando a liderar no exemplo e a atrair novos investimentos por parte da casa mãe.

Que ambições e objectivos aponta para a empresa nos próximos anos?

À semelhança de tantas outras empresas em todo o mundo, a Microsoft está também a tentar encontrar formas de reduzir custos e mitigar os riscos, à medida que se confronta com questões, como: restrições ao crédito, redução da actividade e contenção do consumo. Mas na Microsoft aprendemos que, muitas vezes, os desafios se transformam em oportunidades.

Tal como muitos líderes de empresas que mantêm uma perspectiva a longo prazo, mesmo quando tomam decisões de efeito a curto prazo para se ajustarem à realidade económica actual, a liderança da Microsoft está a utilizar esta oportunidade para reforçar o foco da nossa organização nas prioridades certas e assegurar que dispomos dos recursos adequados para atingir os objectivos de negócio correctos.

O nosso segredo mais bem guardado: a aposta nas pessoas.

Por exemplo, em 2008, o nosso departamento de informática interna moveu 25 por cento dos servidores para um ambiente virtualizado e outros 25 por cento em 2009. Até agora, a economia resultante chegou aos dez milhões de dólares e são apenas necessárias quatro pessoas para gerir os 3.500 servidores da empresa.

A organização financeira da Microsoft está a utilizar o Office Live Meeting como parte de uma abordagem mais completa à partilha electrónica da informação. Recentemente, a empresa optou por cancelar uma conferência anual que teria reunido 700 profissionais de todo o mundo, da área financeira da empresa, para ficarem a conhecer as últimas notícias da equipa de liderança sénior da empresa. Em vez disso, estas informações e formação relacionada serão transmitidas online. Ao substituir esta conferência por reuniões virtuais, a empresa espera economizar mais de um milhão de dólares em despesas de deslocação e do evento.

Estes são apenas alguns exemplos concretos na componente da redução de custos. Mas continuamos a investir em larga escala. Em 2009, o investimento da Microsoft em I&D aumentou para 1,9 mil milhões de dólares e estamos a ver chegar agora ao mercado os primeiros produtos concretos que nos vão permitir oferecer aos nossos clientes um modo de funcionar das suas tecnologias de suporte totalmente baseados na web ou de forma híbrida, mas muito mais eficaz em termos de custos. 2009 foi um dos mais fortes anos tecnológicos de sempre da Microsoft, o que funciona como garante do nosso optimismo para o futuro imediato.

Em Portugal, e de acordo com um estudo de mercado levado a cabo pela consultora IDC Portugal nos últimos dois meses sobre as intenções de adopção do novo Windows 7 pelas organizações portuguesas, temos alguns sinais positivos. A análise conduzida pela IDC permite prever que o novo sistema operativo da Microsoft lançado em Outubro do ano transacto, o Windows 7, irá ter um impacto muito significativo no mercado nacional de Tecnologias de Informação. Apesar do lançamento do sistema só ter ocorrido no final de 2009, os dados da consultora indicavam que, já em 2009, 17 por cento dos PCs fossem vendidos com o Windows 7 instalado. Em 2010, a IDC prevê que 81 por cento dos PCs venham a ser vendidos com o Windows 7.

Este é, sem dúvida, um dos grandes desafios da minha vida. Sou uma mulher de desafios e que gosta de objectivos difíceis.

Com base numa sondagem a mais de 273 organizações, representativa do tecido empresarial de médio e grande porte em Portugal, a IDC constatou que a percepção do Windows 7 pelo mercado nacional é positiva, com 59 por cento das organizações inquiridas a afirmarem a intenção de mudar para o Windows 7, 18 por cento não sabem e apenas 23 por cento dizem que não pretendem migrar.

Neste contexto de grande pressão financeira, após dois anos de forte crescimento derivado dos programas governamentais, a IDC acredita que, em 2010, o Windows 7 será o principal dinamizador do mercado de PCs. Por isso, o Windows 7 e todas as potencialidades que encerra, a par de uma aposta forte em novas categorias, será a nossa grande base de trabalho para continuarmos a nossa caminhada no mercado português.

A Microsoft é uma empresa de inovação, domínio em que Portugal, nos últimos anos, se esforça por também apostar. Que contributo pode dar um grupo, com a experiência internacional da Microsoft, para que Portugal realize o tão desejado salto tecnológico?

A esta questão respondo com factos. Apesar da nossa limitação em termos de massa crítica, trazida pelo carácter exíguo dos números que conseguimos produzir, há duas dimensões em que somos verdadeiramente bons e onde a Microsoft Portugal tem apostado como factor de distinção: o primeiro é o carácter laboratorial do mercado português, o segundo a excelência dos recursos humanos.

O primeiro caso é fácil de explicar: Portugal tem a dimensão certa para testar novas tendências, novas tecnologias e novidades tecnológicas. Tem uma grande apetência por testar inovação e tem uma dimensão suficientemente reduzida para permitir a quem investe suportar uma retirada em caso de falhanço na aposta em teste, mas ao mesmo tempo uma dimensão suficientemente expressiva para comprovar o sucesso e o potencial da inovação em teste.

É exactamente por este carácter laboratorial do mercado português que uma subsidiária de pequena/média dimensão como Portugal conseguiu atrair o primeiro centro europeu de suporte técnico por telefone na Europa (a funcionar desde 2003 no Taguspark) e dois Centros de Investigação e Desenvolvimento. O primeiro Centro de I&D, aberto em 2005, a operar também no Taguspark, dedica-se ao desenvolvimento de tecnologias de interacção pessoa/máquina por voz e o segundo centro de I&D, a funcionar em Braga, resulta da aquisição de uma empresa portuguesa, a MobiComp, dedicando-se hoje à I&D na área das tecnologias de mobilidade. Ambos os centros de I&D já estão a contribuir activamente, com as suas inovações, para tecnologias da Microsoft que se encontram em plena comercialização, um facto que muito nos orgulha.

Considero que as mulheres podem trazer um novo fôlego ao mercado. O número de mulheres em cargos de direcção neste sector está a aumentar.

O segundo caso é talvez o nosso segredo mais bem guardado: a aposta nas pessoas. Esta é a fórmula que encontrámos, já há alguns anos a esta parte, para ultrapassar as limitações da nossa pequenez. Podemos estar geograficamente confinados, mas a nossa massa cinzenta não tem limites. Assim se explica que a Microsoft Portugal tenha sido pioneira em tantas iniciativas dentro do Grupo e tenha conseguido colocar 30 dos seus profissionais em cargos internacionais, alguns deslocados e uma boa parte executando-os a partir de Lisboa. No ano de 2009 tivemos três pessoas transferidas para cargos de abrangência mundial, facto que muito nos orgulha.

A Microsoft escolheu o grande parque português de C&T, o Taguspark, onde coabitam Empresas, Universidades e Instituições de I&D. Que vantagens pode a Microsoft retirar desta escolha?

Fomos um dos primeiros inquilinos desta zona baixa do Parque e, se bem que no início estávamos um pouco distantes, à medida que esta zona se povoou assistimos à fixação de um importante conjunto de parceiros de negócio que se fixaram aqui também pela comodidade de estarmos perto. A grande vantagem de aqui estarmos é efectivamente a elevada concentração de empresas que fazem parte do nosso ecossistema e este facto reduz de alguma forma o tempo perdido nas longas deslocações.

Muito destacado, aquando do anúncio da sua nomeação, foi o facto de ser a primeira mulher a assumir a liderança da Microsoft Portugal… É, aliás, uma das raras mulheres a liderar uma grande empresa no nosso País. Como encara esta ainda tímida aposta na capacidade das gestoras?

Na verdade, não deixa de me causar uma certa surpresa o facto da nomeação de uma mulher para um cargo cimeiro na liderança de uma empresa justifique tantos comentários ou observações. O facto de ser mulher não ocupa praticamente espaço na minha mente e o meu objectivo é manter o nível de excelência da subsidiária portuguesa da Microsoft e, consequentemente, estimular novos investimentos da Microsoft em Portugal.

O mercado de tecnologia é efectivamente dominado por homens, há que admiti-lo, mas considero que as mulheres podem trazer um novo fôlego ao mercado. O número de mulheres em cargos de direcção neste sector está a aumentar.

Na Microsoft sempre houve uma preocupação com a diversidade e creio que os homens da empresa não se sentem mal com isso. Tenho vindo a trabalhar com a mesma equipa há 20 meses, na sua maioria homens, e temos conseguido alcançar excelentes resultados. Somos uma equipa muito forte e unida. É uma forma de criar maior dinamismo, criatividade e espírito de coesão.

Este é, sem dúvida, um dos grandes desafios da minha vida. Sou uma mulher de desafios e que gosta de objectivos difíceis. Dar continuidade ao trabalho de excelência que vem sido feito nos últimos anos, que se tem reflectido em sucessivos prémios atribuídos à subsidiária, é para mim um factor de motivação e um grande privilégio. Sou uma optimista por natureza e, por essa razão, encaro o futuro com grande entusiasmo.





20/01/2010
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