Ponto final na violência doméstica

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As vítimas de violência doméstica são isso mesmo: vítimas, hoje e sempre. Porque, mesmos nos casos com um final "feliz", as marcas das humilhações – físicas e, sobretudo, psicológicas – ficam para sempre. Atormentadas, desesperadas, feridas de morte (no corpo e na mente), as vítimas de violência doméstica, em alguns casos, encontram a solução em uma de duas hipóteses (às vezes em ambas): matar ou morrer!

Foi o que aconteceu com Irene, 22 anos, que, no passado dia 15 de Janeiro, feriu mortalmente o "companheiro" com uma facada no pescoço, depois de anos de repetidas agressões diárias, dentro da sua própria casa e frente aos olhos da filha de ambos.

Irene, desempregada e a estudar à noite, e André (21 anos), trabalhador na construção civil, viviam juntos há quatro anos, na Quinta da Fonte, em Loures. Em comum tinham uma filha, de quatro anos, que, quase todas as noites, assistia aos insultos e agressões – discussões que, na maioria das vezes, terminavam sempre da pior maneira para Irene.

Na madrugada do dia 15, farta de tanta violência, num momento de desespero, Irene tenta defender-se, deitando a mão a uma faca. O golpe atinge o agressor no pescoço, corta-lhe a jugular e este cai no chão e acaba, fatalmente, por morrer. Irene esperou a chegada da PJ e foi presente ao Tribunal de Loures, que lhe concedeu liberdade, por ser vítima de violência doméstica e pelos muitos anos de sofrimento.

Depois de matar acidentalmente o companheiro, Irene correu para casa da mãe, no apartamento ao lado. "Ela chegou a casa em pânico e a chorar. Até queria matar-se", conta uma irmã.
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"Uma vez, a minha irmã apareceu com os dentes todos partidos. Nunca se queixou de que ele lhe batia, mas tinha muitas marcas disso. Era uma tristeza e agora terminou assim", lamenta a familiar.

Uma vizinha conta que, na noite do crime, "acordei com o aparato e uma grande discussão. Insultaram-se várias vezes e depois dava a impressão de que partiam coisas. Mas não foi só ontem... Eles gritavam e lutavam todos os dias, apesar de serem muito jovens", garante.

As agressões físicas de que Irene era vítima terminaram. Fica o alívio de ter conseguido escapar à morte, mas também o peso de ter morto o pai da sua filha. A jovem Irene é, antes de mais, uma vítima. Duplamente vítima. Vítima de anos de agressões diárias. Vítima agora de um acidente infeliz. Viveu anos no inferno e tem uma ameaça de mais um inferno. Para além de apoio psicológico, esta mulher precisa urgentemente que a "Justiça" seja justa com ela.

E a mande em paz para casa. Recuperar de anos de horrores.





20/01/2010
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